Nosso Calendário Escolar
O diário das professoras.
quinta-feira, 17 de outubro de 2019
segunda-feira, 11 de setembro de 2017
Os invisíveis
Com intuito de incentivar a leitura das crianças, comecei um projeto chamado "sacola de leitura". Não foi inventado por mim, é bem comum e conhecido por diversos nomes como "leitura em família" ou "mala de leitura". Consiste em enviar para casa um livro e um caderno, onde deverá ser feito o registro do livro lido.
Minha turma tem se mostrado bem interessada, ficam ansiosos esperando o dia em que serão contemplados, e participam ativamente da conversa sobre o livro no dia seguinte.
É sobre uma dessas conversas que irei falar agora.
Eu deixo que eles escolham o livro da nossa caixa, e a última escolha foi do livro OS INVISÍVEIS de Tino Freitas; eu estava torcendo que ninguém escolhesse esse livro... Mas ele foi... É um livro muito bonito, que conta a história de um menino que nasce com o superpoder de ver pessoas invisíveis, e que isso acontece em todo lugar que ele vai, e que algumas vezes ele mesmo se sente invisível... Até que ele cresce, faz faculdade, casa... E perde o poder.
Contar a história em si já não foi fácil, uma vez que ela me deixa emocionada, mas discutir com eles foi foi a pior parte...
Primeiro conversamos sobre quem são as pessoas invisíveis, e eles me disseram que são as pessoas que estão na rua (no sentido de fora de casa); na história o menino cresce e deixa de ver essas pessoas, e eles me disseram que isso não vai acontecer. Mas quantas vezes passamos por invisíveis no nosso dia? Viramos o rosto, fingimos que não é da nossa conta? Ou tratamos mal aquela pessoa que nos atende no restaurante?
Depois perguntei, se assim como o menino, eles já se sentiram invisíveis alguma vez. A maioria levantou o braço. Foi nessa hora que eu precisei ser forte para ouvir, naquelas vozinhas infantis:
"minha mãe mora longe, ela não quer ficar comigo."
"eu não vejo meu pai e minha mãe há muito tempo."
"me senti invisível quando minha tia olhou para trás e não me viu."
"minha mãe não me escuta."
"minha mãe me deixa sozinha... As vezes meu pai também."
"eu vou para casa da minha avó, mas ela nem presta atenção em mim."
Deu para notar a constância nas falas? A família é a parte mais importante na vida de uma criança. Não importa se você gasta todo o dinheiro do mundo em presentes e coisas caras, não importa colocar a criança na escolinha de balé, natação e bla bla bla... O TEMPO é única coisa que realmente importa para a criança, e doeu ouvir o que eles tinham para dizer, se como adulta já me senti invisível tantas vezes, imagino aquelas crianças, querendo apenas um momento, um olhar, um abraço... E era por esse motivo que eu não queria que esse livro fosse escolhido, mas muitas vezes no meu dia a dia preciso lidar com sentimentos que nem eu mesmo superei, e esse foi um desses momentos. Mas cada dia sigo aprendendo e ensinando...
E no dia de hoje aprendi que esse projeto vai além do incentivo à leitura, talvez seja um incentivo a doar um tempo, que é o melhor presente que uma criança pode ganhar.
Minha turma tem se mostrado bem interessada, ficam ansiosos esperando o dia em que serão contemplados, e participam ativamente da conversa sobre o livro no dia seguinte.
É sobre uma dessas conversas que irei falar agora.
Eu deixo que eles escolham o livro da nossa caixa, e a última escolha foi do livro OS INVISÍVEIS de Tino Freitas; eu estava torcendo que ninguém escolhesse esse livro... Mas ele foi... É um livro muito bonito, que conta a história de um menino que nasce com o superpoder de ver pessoas invisíveis, e que isso acontece em todo lugar que ele vai, e que algumas vezes ele mesmo se sente invisível... Até que ele cresce, faz faculdade, casa... E perde o poder.
Contar a história em si já não foi fácil, uma vez que ela me deixa emocionada, mas discutir com eles foi foi a pior parte...
Primeiro conversamos sobre quem são as pessoas invisíveis, e eles me disseram que são as pessoas que estão na rua (no sentido de fora de casa); na história o menino cresce e deixa de ver essas pessoas, e eles me disseram que isso não vai acontecer. Mas quantas vezes passamos por invisíveis no nosso dia? Viramos o rosto, fingimos que não é da nossa conta? Ou tratamos mal aquela pessoa que nos atende no restaurante?
Depois perguntei, se assim como o menino, eles já se sentiram invisíveis alguma vez. A maioria levantou o braço. Foi nessa hora que eu precisei ser forte para ouvir, naquelas vozinhas infantis:
"minha mãe mora longe, ela não quer ficar comigo."
"eu não vejo meu pai e minha mãe há muito tempo."
"me senti invisível quando minha tia olhou para trás e não me viu."
"minha mãe não me escuta."
"minha mãe me deixa sozinha... As vezes meu pai também."
"eu vou para casa da minha avó, mas ela nem presta atenção em mim."
Deu para notar a constância nas falas? A família é a parte mais importante na vida de uma criança. Não importa se você gasta todo o dinheiro do mundo em presentes e coisas caras, não importa colocar a criança na escolinha de balé, natação e bla bla bla... O TEMPO é única coisa que realmente importa para a criança, e doeu ouvir o que eles tinham para dizer, se como adulta já me senti invisível tantas vezes, imagino aquelas crianças, querendo apenas um momento, um olhar, um abraço... E era por esse motivo que eu não queria que esse livro fosse escolhido, mas muitas vezes no meu dia a dia preciso lidar com sentimentos que nem eu mesmo superei, e esse foi um desses momentos. Mas cada dia sigo aprendendo e ensinando...
E no dia de hoje aprendi que esse projeto vai além do incentivo à leitura, talvez seja um incentivo a doar um tempo, que é o melhor presente que uma criança pode ganhar.
sábado, 9 de setembro de 2017
Ser professor
Em algum momento da minha vida, eu pensei que a peça de roupa que eu sentiria orgulho de estar desgastada seria a minha jaqueta de couro. Diante inúmeras viagens que eu realizaria com ela.
Na simplicidade do dia dia, lavando roupa à mão, eu me deparei com meu instrumento de trabalho, jaleco, ou bata, dependendo da região seu nome muda.
Nesse instante, me senti cega, até então, porque na simplicidade do dia dia, a “coisa” mais óbvia que eu sentiria orgulho de estar surrada, seria essa peça de roupa bordada PROFESSORA THAISE.
Eu quero falar da FELICIDADE que me causa de estar em meio aos “pequenos jovens”, aos adultos quando sou professora de adultos e aos idosos também.
Felicidade por ter me encontrado, assim como sei que muitos colegas se encontram ao estar diante 300 alunos num cursinho pré-vestibular, ou às 21h da noite ajudando uma senhorinha do EJA a aprender a ler, depois de um dia de trabalho exausto de ambos.
Daquele “lugar” que a gente vai quando sabe que conseguiu algo de tão bom naquele dia, é que pode ser que nem fique tão evidente, em palavras ou gestos, mas a gente sente!
Aquele calor no coração, que te deixa com a sensação de estar fazendo seu melhor EM LIBERDADE.
Atualmente eu tenho a oportunidade de ver o resultado do aprendizado de técnicas e a vontade de querer fazer as coisas, despertada nas crianças, devido ao trabalho em campo que elas realizam. Quando elas tem as ferramentas disponíveis e tempo para poder criar coisas incrivelmente simples.
De poder contar a história de vida de Isacc Newton lentamente ou um dos causos do livro do homem que calculava, a fim de despertar o interesse de um aluno por determinado assunto. Que pode ser até, uma tentativa minha de ajudá-lo a superar uma dificuldade.
De não ter o controle o tempo todo de como essa minha ação irá reverberar neles e nem sermos cobrados intempestivamente por isso o tempo todo.
De poder juntar o 1º ano e o 7º ano, numa vivência com o fogão a lenha, na época de química, e poder tomar um chá de hortelã com camomila feito na hora, ervas vindas do jardim que eles próprios cuidam. De passar a tarde, parafusando a parede para pendurar os trabalhos da classe, aprendendo e pensando junto com um grande mestre aluno a utilizar as ferramentas!
Eu me alimento disso, crio forças para querer ir em frente. Esse vínculo lá no fundo que a “pedagogia” do fazer pode proporcionar, é o que eu quero para mim e para a minha vida!
Desejo ter muitos e muitos jalecos ou bata surrados pela vida (não vejam por favor que eles merecem ser trocados ou costurados ok!).
Sempre foi como desde o meu primeiro dia em sala de aula em 2009, todos os momentos que eu estive com eles, aquele calor no coração que quem é professor sabe do que eu estou falando! Aquele que te move, te inspira e transborda!
(Texto por Thaise Roth)
terça-feira, 1 de agosto de 2017
Tenha paciência
Algumas pessoas tem me perguntado "cadê as histórias da sala 3?". Eu realmente posto bem menos, esse texto vem hoje em tom de desabafo.
Não tem sido um ano fácil, essa turma não tem um nível de aprendizagem muito bom, acho que a lentidão deles se reflete na falta de histórias para postar: não é uma turma perpiscaz como a anterior, que tinha sempre algo interessante a dizer.
Eu dou o meu melhor, muitas vezes fico acordada até tarde, perco o sono pensando no que fazer (como hoje), peço ajuda às colegas... Nada tem dado certo. Sinto um peso, um sentimento de fracasso. Mas não precisam me consolar: eu dou o meu melhor, eu sei que a culpa não é minha. Mas me entristece perceber que não tenho resultados satisfatórios, e que em muitos casos não há realmente o que eu possa fazer por eles; daí me vem um sentimento de impotência.
É nessas horas que eu vejo: a educação NÃO está nas mãos do professor. Eu sou uma ferramenta, um pedaço de algo muito maior, eu sou apenas uma parte do caminho que essas almas percorrem na vida.
Uma professora mais experiente disse para mim "tenha paciência com você." Porque eu preciso lembrar que eu não sou capaz de tudo, que vai acontecer de não dar certo e eu tenho que me perdoar. Mas não tem sido fácil, às vezes eu quero apenas chorar, mas me levanto e vou para escola... Dos meus 27 alunos, apenas 1 apresentou um avanço significativo. Dizem que fazer a diferença na vida de uma pessoa já é o suficiente, é mehor que vir à terra e apenas passar, sem marcar ninguém, sem fazer o bem.
Vou me agarrar nesse único aluno, torcer que ele faça muito mais e pedir à Deus todos os dias para me iluminar, pois não tem sido fácil aceitar a realidade dessa turma.
Espero voltar aqui no fim do ano e dizer: essa turma me surpreendeu!
Abraços a todos.
quinta-feira, 4 de maio de 2017
ALUCINAÇÕES
Colinas
tão distantes
Aos meus
olhos se projetam
mar tão
impiedoso
em meu
íntimo despertar
uma
estranha sensação
de corpo
muito pesado
Cujos pés
não tocam o chão.
Minha
mente enevoada
perdida em
devaneios
inquietamente
povoada
de
pensamentos em falta
barulhentos
como o silêncio
escuros
como a alvorada.
Guiada
pela Insanidade
e
perseguida pela Razão
sigo
jornada em terra incerta
não por
amor ou paixão
mas por
uma promessa
de
encontrar porta aberta
para meu
"eu' em solidão.
Que coisas
são essas
interrompendo
meu caminho?
Decisões
erradas ou mão do caminho?
Que me
fazem escrever,
Aleatórias
palavras
sem
nenhuma inspiração
numa noite
enluarada?
terça-feira, 25 de abril de 2017
Um dia parado
Parecia que iria ser mais um desses dias cansados de aula, daqueles que demoram a passar e está todo mundo cheio de preguiça. Escrevi uma ativade no quadro e fui até a porta da sala, pois a outra professora estava me chamando.
- Professora, posso beber água? - Fui interrompida no meio do caminho por uma aluna.
- Pode sim, vá rapidinho. - eu disse.
Cheguei perto da minha colega de trabalho e ela começou a dizer como estava quente a sala, parecia que não ia render nada esse dia, até as crianças estavam estafadas...
Cheguei perto da minha colega de trabalho e ela começou a dizer como estava quente a sala, parecia que não ia render nada esse dia, até as crianças estavam estafadas...
Minha aluna voltou e ficou parada ao nosso lado.
- Oi Ana. Pode entrar na sala. - falei. Ela balançou a cabeça dizendo que não. - O que foi? - perguntei, mas ela não disse nada, apontou para boca. - Engula a água Ana. - Ela negou novamente e repetiu o gesto. - Pois então vá cuspir. - Ana encolheu os ombros e foi até a pia com ar de frustração. Enquanto isso alguns meninos começavam a se agitar na sala, vindo até mim para dizer "terminei" ou "posso beber água?". Ana voltou e ficou ao meu lado, foi quando Lucas gritou:
- ELA PERDEU UM DENTE PROFESSORA!!!!!!
- Cadê? Me mostra a janela Ana! - Ela abriu o sorrisão e mostrou o dente na mão. - Que beleza hein! Caiu um dente de leite!
-ELA TÁ BANGUELAAAAAAAA!!! -gritou Lucas, rindo, deixando a garota com vergonha.
- Qual o problema Lucas? Todo mundo fica banguelo um dia, depois nasce. - falei.
- Eu não! Todos os meus dentes estão aqui na boca.
- Por enquanto né...
A tarde foi passando, as crianças se agitando e aquele calor cansado que não passava. Parecia que quanto mais quente, mais eles corriam, e eu virei um disco arranhado na frase "senta Lucas e João. Parem de correr os dois. Senta Lucas e João. Parem de correr os dois..."
Cansei de falar, resolvi sentar e ajudar individualmente alguns alunos a terminar a tarefa. De repente chega Zé:
- Professora! Lucas tá chorando! João bateu nele!
Olhei na Direção de Lucas, e um grupo se formava ao redor enquanto ele chorava copiosamente. Levantei, já pensando no "eu avisei para não correr..." que iria soltar, quando vi sangue, muito sangue! O sangue escorria pelo pescoço e descia na camisa do menino.
Sempre imaginei que ficaria extremamente nervosa numa situação dessa, eu odeio sangue. Até quando vou fazer exame eu fecho os olhos. Mas não fiquei, na verdade eu quis rir, isso porque João estava mais nervoso que o acidentado, e tentou estancar o sangue com uma bola de papel (de caderno), ele olhava para mim e perguntava: "vou ficar de castigo tia?" enquanto colocava a bola no rosto do colega.
Bem, peguei Lucas pela mão e o levei para coordenação. Limpamos o sangue e...
Eu sei o que vocês estão pensando "o dente dele caiu". Eu também pensei nisso, mas ele bateu foi o nariz, e parecia uma cachoeira sanguinolenta que não deixava eu ver onde estava machucado. Depois de limpo ele sentou-se e ficou quietinho (por 10 minutos).
*Moral da história: rir dos coleguinhas não é legal, pois você pode se dar mal.
Aline Antunes
-Os nomes das crianças foram modificados a fim de preservar a identidade das mesmas.
A tarde foi passando, as crianças se agitando e aquele calor cansado que não passava. Parecia que quanto mais quente, mais eles corriam, e eu virei um disco arranhado na frase "senta Lucas e João. Parem de correr os dois. Senta Lucas e João. Parem de correr os dois..."
Cansei de falar, resolvi sentar e ajudar individualmente alguns alunos a terminar a tarefa. De repente chega Zé:
- Professora! Lucas tá chorando! João bateu nele!
Olhei na Direção de Lucas, e um grupo se formava ao redor enquanto ele chorava copiosamente. Levantei, já pensando no "eu avisei para não correr..." que iria soltar, quando vi sangue, muito sangue! O sangue escorria pelo pescoço e descia na camisa do menino.
Sempre imaginei que ficaria extremamente nervosa numa situação dessa, eu odeio sangue. Até quando vou fazer exame eu fecho os olhos. Mas não fiquei, na verdade eu quis rir, isso porque João estava mais nervoso que o acidentado, e tentou estancar o sangue com uma bola de papel (de caderno), ele olhava para mim e perguntava: "vou ficar de castigo tia?" enquanto colocava a bola no rosto do colega.
Bem, peguei Lucas pela mão e o levei para coordenação. Limpamos o sangue e...
Eu sei o que vocês estão pensando "o dente dele caiu". Eu também pensei nisso, mas ele bateu foi o nariz, e parecia uma cachoeira sanguinolenta que não deixava eu ver onde estava machucado. Depois de limpo ele sentou-se e ficou quietinho (por 10 minutos).
*Moral da história: rir dos coleguinhas não é legal, pois você pode se dar mal.
Aline Antunes
-Os nomes das crianças foram modificados a fim de preservar a identidade das mesmas.
segunda-feira, 17 de abril de 2017
A falta de leitores
A leitura é um poço profundo de onde o indivíduo pode tirar ideias. Essas águas de múltiplos pensamentos quando derramadas sobre o solo do coração são capazes de florescer mais conhecimento, esse por sua vez gera mais empatia se cultivado do jeito certo.
Então é preocupante a dificuldade de encontrar leitores. Não qualquer leitor, mas aqueles dispostos a conhecer tudo, seja pelos olhos da ficção ou da crua verdade.
Encontrar um leitor é difícil, porque a leitura é libertadora e nem todos querem ser libertos. Afinal de contas, se manter na ignorância é mais fácil, esperar que terceiros lhe deem a resposta é mais fácil, permitir que alguém lhe guie é mais fácil, só que a ignorância também é o caminho mais fácil para se perder.
Ler é conquistar mundos que já foram ou que poderiam ser, se perdendo nessas histórias para se encontrar um pouco nas suas personalidades, é ser levado a aprender construindo, desconstruindo e reformando conhecimentos adquiridos ao longo da História, das experiências e da imaginação.
Portanto, ler não é uma tarefa simples, porque exige desejo de conhecer, vontade de mudar o mundo e força para aguentar a realidade de que leitores estão em falta.
Lis Regina.
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