segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Os invisíveis

Com intuito de incentivar a leitura das crianças, comecei um projeto chamado "sacola de leitura". Não foi inventado por mim, é bem comum e conhecido por diversos nomes como "leitura em família" ou "mala de leitura". Consiste em enviar para casa um livro e um caderno, onde deverá ser feito o registro do livro lido.

Minha turma tem se mostrado bem interessada, ficam ansiosos esperando o dia em que serão contemplados, e participam ativamente da conversa sobre o livro no dia seguinte.

É sobre uma dessas conversas que irei falar agora.

Eu deixo que eles escolham o livro da nossa caixa, e a última escolha foi do livro OS INVISÍVEIS de Tino Freitas; eu estava torcendo que ninguém escolhesse esse livro... Mas ele foi... É um livro muito bonito, que conta a história de um menino que nasce com o superpoder de ver pessoas invisíveis, e que isso acontece em todo lugar que ele vai, e que algumas vezes ele mesmo se sente invisível... Até que ele cresce, faz faculdade, casa... E perde o poder.


Contar a história em si já não foi fácil, uma vez que ela me deixa emocionada, mas discutir com eles foi foi a pior parte...
Primeiro conversamos sobre quem são as pessoas invisíveis, e eles me disseram que são as pessoas que estão na rua (no sentido de fora de casa); na história o menino cresce e deixa de ver essas pessoas, e eles me disseram que isso não vai acontecer. Mas quantas vezes passamos por invisíveis no nosso dia? Viramos o rosto, fingimos que não é da nossa conta? Ou tratamos mal aquela pessoa que nos atende no restaurante?

Depois perguntei, se assim como o menino, eles já se sentiram invisíveis alguma vez. A maioria levantou o braço. Foi nessa hora que eu precisei ser forte para ouvir, naquelas vozinhas infantis:

"minha mãe mora longe, ela não quer ficar comigo."
"eu não vejo meu pai e minha mãe há muito tempo."
"me senti invisível quando minha tia olhou para trás e não me viu."
"minha mãe não me escuta."
"minha mãe me deixa sozinha... As vezes meu pai também."
"eu vou para casa da minha avó, mas ela nem presta atenção em mim."

Deu para notar a constância nas falas? A família é a parte mais importante na vida de uma criança. Não importa se você gasta todo o dinheiro do mundo em presentes e coisas caras, não importa colocar a criança na escolinha de balé, natação e bla bla bla... O TEMPO é única coisa que realmente importa para a criança, e doeu ouvir o que eles tinham para dizer, se como adulta já me senti invisível tantas vezes, imagino aquelas crianças, querendo apenas um momento, um olhar, um abraço... E era por esse motivo que eu não queria que esse livro fosse escolhido, mas muitas vezes no meu dia a dia preciso lidar com sentimentos que nem eu mesmo superei, e esse foi um desses momentos. Mas cada dia sigo aprendendo e ensinando...

E no dia de hoje aprendi que esse projeto vai além do incentivo à leitura, talvez seja um incentivo a doar um tempo, que é o melhor presente que uma criança pode ganhar.

sábado, 9 de setembro de 2017

Ser professor


Em algum momento da minha vida, eu pensei que a peça de roupa que eu sentiria orgulho de estar desgastada seria a minha jaqueta de couro. Diante inúmeras viagens que eu realizaria com ela.
Na simplicidade do dia dia, lavando roupa à mão, eu me deparei com meu instrumento de trabalho, jaleco, ou bata, dependendo da região seu nome muda.
Nesse instante, me senti cega, até então, porque na simplicidade do dia dia, a “coisa” mais óbvia que eu sentiria orgulho de estar surrada, seria essa peça de roupa bordada PROFESSORA THAISE.
Eu quero falar da FELICIDADE que me causa de estar em meio aos “pequenos jovens”, aos adultos quando sou professora de adultos e aos idosos também.
Felicidade por ter me encontrado, assim como sei que muitos colegas se encontram ao estar diante 300 alunos num cursinho pré-vestibular, ou às 21h da noite ajudando uma senhorinha do EJA a aprender a ler, depois de um dia de trabalho exausto de ambos.
Daquele “lugar” que a gente vai quando sabe que conseguiu algo de tão bom naquele dia, é que pode ser que nem fique tão evidente, em palavras ou gestos, mas a gente sente!
Aquele calor no coração, que te deixa com a sensação de estar fazendo seu melhor EM LIBERDADE.
Atualmente eu tenho a oportunidade de ver o resultado do aprendizado de técnicas e a vontade de querer fazer as coisas, despertada nas crianças, devido ao trabalho em campo que elas realizam. Quando elas tem as ferramentas disponíveis e tempo para poder criar coisas incrivelmente simples.
De poder contar a história de vida de Isacc Newton lentamente ou um dos causos do livro do homem que calculava, a fim de despertar o interesse de um aluno por determinado assunto. Que pode ser até, uma tentativa minha de ajudá-lo a superar uma dificuldade.
De não ter o controle o tempo todo de como essa minha ação irá reverberar neles e nem sermos cobrados intempestivamente por isso o tempo todo.
De poder juntar o 1º ano e o 7º ano, numa vivência com o fogão a lenha, na época de química, e poder tomar um chá de hortelã com camomila feito na hora, ervas vindas do jardim que eles próprios cuidam. De passar a tarde, parafusando a parede para pendurar os trabalhos da classe, aprendendo e pensando junto com um grande mestre aluno a utilizar as ferramentas!
Eu me alimento disso, crio forças para querer ir em frente. Esse vínculo lá no fundo que a “pedagogia” do fazer pode proporcionar, é o que eu quero para mim e para a minha vida!
Desejo ter muitos e muitos jalecos ou bata surrados pela vida (não vejam por favor que eles merecem ser trocados ou costurados ok!).
Sempre foi como desde o meu primeiro dia em sala de aula em 2009, todos os momentos que eu estive com eles, aquele calor no coração que quem é professor sabe do que eu estou falando! Aquele que te move, te inspira e transborda!

(Texto por Thaise Roth)