segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Os invisíveis

Com intuito de incentivar a leitura das crianças, comecei um projeto chamado "sacola de leitura". Não foi inventado por mim, é bem comum e conhecido por diversos nomes como "leitura em família" ou "mala de leitura". Consiste em enviar para casa um livro e um caderno, onde deverá ser feito o registro do livro lido.

Minha turma tem se mostrado bem interessada, ficam ansiosos esperando o dia em que serão contemplados, e participam ativamente da conversa sobre o livro no dia seguinte.

É sobre uma dessas conversas que irei falar agora.

Eu deixo que eles escolham o livro da nossa caixa, e a última escolha foi do livro OS INVISÍVEIS de Tino Freitas; eu estava torcendo que ninguém escolhesse esse livro... Mas ele foi... É um livro muito bonito, que conta a história de um menino que nasce com o superpoder de ver pessoas invisíveis, e que isso acontece em todo lugar que ele vai, e que algumas vezes ele mesmo se sente invisível... Até que ele cresce, faz faculdade, casa... E perde o poder.


Contar a história em si já não foi fácil, uma vez que ela me deixa emocionada, mas discutir com eles foi foi a pior parte...
Primeiro conversamos sobre quem são as pessoas invisíveis, e eles me disseram que são as pessoas que estão na rua (no sentido de fora de casa); na história o menino cresce e deixa de ver essas pessoas, e eles me disseram que isso não vai acontecer. Mas quantas vezes passamos por invisíveis no nosso dia? Viramos o rosto, fingimos que não é da nossa conta? Ou tratamos mal aquela pessoa que nos atende no restaurante?

Depois perguntei, se assim como o menino, eles já se sentiram invisíveis alguma vez. A maioria levantou o braço. Foi nessa hora que eu precisei ser forte para ouvir, naquelas vozinhas infantis:

"minha mãe mora longe, ela não quer ficar comigo."
"eu não vejo meu pai e minha mãe há muito tempo."
"me senti invisível quando minha tia olhou para trás e não me viu."
"minha mãe não me escuta."
"minha mãe me deixa sozinha... As vezes meu pai também."
"eu vou para casa da minha avó, mas ela nem presta atenção em mim."

Deu para notar a constância nas falas? A família é a parte mais importante na vida de uma criança. Não importa se você gasta todo o dinheiro do mundo em presentes e coisas caras, não importa colocar a criança na escolinha de balé, natação e bla bla bla... O TEMPO é única coisa que realmente importa para a criança, e doeu ouvir o que eles tinham para dizer, se como adulta já me senti invisível tantas vezes, imagino aquelas crianças, querendo apenas um momento, um olhar, um abraço... E era por esse motivo que eu não queria que esse livro fosse escolhido, mas muitas vezes no meu dia a dia preciso lidar com sentimentos que nem eu mesmo superei, e esse foi um desses momentos. Mas cada dia sigo aprendendo e ensinando...

E no dia de hoje aprendi que esse projeto vai além do incentivo à leitura, talvez seja um incentivo a doar um tempo, que é o melhor presente que uma criança pode ganhar.

sábado, 9 de setembro de 2017

Ser professor


Em algum momento da minha vida, eu pensei que a peça de roupa que eu sentiria orgulho de estar desgastada seria a minha jaqueta de couro. Diante inúmeras viagens que eu realizaria com ela.
Na simplicidade do dia dia, lavando roupa à mão, eu me deparei com meu instrumento de trabalho, jaleco, ou bata, dependendo da região seu nome muda.
Nesse instante, me senti cega, até então, porque na simplicidade do dia dia, a “coisa” mais óbvia que eu sentiria orgulho de estar surrada, seria essa peça de roupa bordada PROFESSORA THAISE.
Eu quero falar da FELICIDADE que me causa de estar em meio aos “pequenos jovens”, aos adultos quando sou professora de adultos e aos idosos também.
Felicidade por ter me encontrado, assim como sei que muitos colegas se encontram ao estar diante 300 alunos num cursinho pré-vestibular, ou às 21h da noite ajudando uma senhorinha do EJA a aprender a ler, depois de um dia de trabalho exausto de ambos.
Daquele “lugar” que a gente vai quando sabe que conseguiu algo de tão bom naquele dia, é que pode ser que nem fique tão evidente, em palavras ou gestos, mas a gente sente!
Aquele calor no coração, que te deixa com a sensação de estar fazendo seu melhor EM LIBERDADE.
Atualmente eu tenho a oportunidade de ver o resultado do aprendizado de técnicas e a vontade de querer fazer as coisas, despertada nas crianças, devido ao trabalho em campo que elas realizam. Quando elas tem as ferramentas disponíveis e tempo para poder criar coisas incrivelmente simples.
De poder contar a história de vida de Isacc Newton lentamente ou um dos causos do livro do homem que calculava, a fim de despertar o interesse de um aluno por determinado assunto. Que pode ser até, uma tentativa minha de ajudá-lo a superar uma dificuldade.
De não ter o controle o tempo todo de como essa minha ação irá reverberar neles e nem sermos cobrados intempestivamente por isso o tempo todo.
De poder juntar o 1º ano e o 7º ano, numa vivência com o fogão a lenha, na época de química, e poder tomar um chá de hortelã com camomila feito na hora, ervas vindas do jardim que eles próprios cuidam. De passar a tarde, parafusando a parede para pendurar os trabalhos da classe, aprendendo e pensando junto com um grande mestre aluno a utilizar as ferramentas!
Eu me alimento disso, crio forças para querer ir em frente. Esse vínculo lá no fundo que a “pedagogia” do fazer pode proporcionar, é o que eu quero para mim e para a minha vida!
Desejo ter muitos e muitos jalecos ou bata surrados pela vida (não vejam por favor que eles merecem ser trocados ou costurados ok!).
Sempre foi como desde o meu primeiro dia em sala de aula em 2009, todos os momentos que eu estive com eles, aquele calor no coração que quem é professor sabe do que eu estou falando! Aquele que te move, te inspira e transborda!

(Texto por Thaise Roth) 

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Tenha paciência

   Algumas pessoas tem me perguntado "cadê as histórias da sala 3?". Eu realmente posto bem menos, esse texto vem hoje em tom de desabafo.
   Não tem sido um ano fácil, essa turma não tem um nível de aprendizagem muito bom, acho que a lentidão deles se reflete na falta de histórias para postar: não é uma turma perpiscaz como a anterior, que tinha sempre algo interessante a dizer. 
   Eu dou o meu melhor, muitas vezes fico acordada até tarde, perco o sono pensando no que fazer (como hoje), peço ajuda às colegas... Nada tem dado certo. Sinto um peso, um sentimento de fracasso. Mas não precisam me consolar: eu dou o meu melhor, eu sei que a culpa não é minha. Mas me entristece perceber que não tenho resultados satisfatórios, e que em muitos casos não há realmente o que eu possa fazer por eles; daí me vem um sentimento de impotência.
   É nessas horas que eu vejo: a educação NÃO está nas mãos do professor. Eu sou uma ferramenta, um pedaço de algo muito maior, eu sou apenas uma parte do caminho que essas almas percorrem na vida. 
   Uma professora mais experiente disse para mim "tenha paciência com você." Porque eu preciso lembrar que eu não sou capaz de tudo, que vai acontecer de não dar certo e eu tenho que me perdoar. Mas não tem sido fácil, às vezes eu quero apenas chorar, mas me levanto e vou para escola... Dos meus 27 alunos, apenas 1 apresentou um avanço significativo. Dizem que fazer a diferença na vida de uma pessoa já é o suficiente, é mehor que vir à terra e apenas passar, sem marcar ninguém, sem fazer o bem.
   Vou me agarrar nesse único aluno, torcer que ele faça muito mais e pedir à Deus todos os dias para me iluminar, pois não tem sido fácil aceitar a realidade dessa turma. 
   Espero voltar aqui no fim do ano e dizer: essa turma me surpreendeu!

Abraços a todos.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

ALUCINAÇÕES




Colinas tão distantes
Aos meus olhos se projetam
mar tão impiedoso
em meu íntimo despertar
uma estranha sensação
de corpo muito pesado
Cujos pés não tocam o chão.


Minha mente enevoada
perdida em devaneios
inquietamente povoada
de pensamentos em falta
barulhentos como o silêncio
escuros como a alvorada.


Guiada pela Insanidade
e perseguida pela Razão
sigo jornada em terra incerta
não por amor ou paixão
mas por uma promessa
de encontrar porta aberta
para meu "eu' em solidão.


Que coisas são essas
interrompendo meu caminho?
Decisões erradas ou mão do caminho?
Que me fazem escrever,
Aleatórias palavras
sem nenhuma inspiração
numa noite enluarada?


terça-feira, 25 de abril de 2017

Um dia parado

Parecia que iria ser mais um desses dias cansados de aula, daqueles que demoram a passar e está todo mundo cheio de preguiça. Escrevi uma ativade no quadro e fui até a porta da sala, pois a outra professora estava me chamando.

- Professora, posso beber água? - Fui interrompida no meio do caminho por uma aluna.

- Pode sim, vá rapidinho. - eu disse.

Cheguei perto da minha colega de trabalho e ela começou a dizer como estava quente a sala, parecia que não ia render nada esse dia, até as crianças estavam estafadas... 

Minha aluna voltou e ficou parada ao nosso lado.

- Oi Ana. Pode entrar na sala. - falei. Ela balançou a cabeça dizendo que não. - O que foi? - perguntei, mas ela não disse nada, apontou para boca. - Engula a água Ana. - Ela negou novamente e repetiu o gesto. - Pois então vá cuspir. - Ana encolheu os ombros e foi até a pia com ar de frustração. Enquanto isso alguns meninos começavam a se agitar na sala, vindo até mim para dizer "terminei" ou "posso beber água?". Ana voltou e ficou ao meu lado, foi quando Lucas gritou: 

- ELA PERDEU UM DENTE PROFESSORA!!!!!!

- Cadê? Me mostra a janela Ana! - Ela abriu o sorrisão e mostrou o dente na mão. - Que beleza hein! Caiu um dente de leite! 

-ELA TÁ BANGUELAAAAAAAA!!! -gritou Lucas, rindo, deixando a garota com vergonha.

- Qual o problema Lucas? Todo mundo fica banguelo um dia, depois nasce. - falei.

- Eu não! Todos os meus dentes estão aqui na boca.

- Por enquanto né...

A tarde foi passando, as crianças se agitando e aquele calor cansado que não passava. Parecia que quanto mais quente, mais eles corriam, e eu virei um disco arranhado na frase "senta Lucas e João. Parem de correr os dois. Senta Lucas e João. Parem de correr os dois..."

Cansei de falar, resolvi sentar e ajudar individualmente alguns alunos a terminar a tarefa. De repente chega Zé:

- Professora! Lucas tá chorando! João bateu nele!

Olhei na Direção de Lucas, e um grupo se formava ao redor enquanto ele chorava copiosamente. Levantei, já pensando no "eu avisei para não correr..." que iria soltar, quando vi sangue, muito sangue! O sangue escorria pelo pescoço e descia na camisa do menino.

Sempre imaginei que ficaria extremamente nervosa numa situação dessa, eu odeio sangue. Até quando vou fazer exame eu fecho os olhos. Mas não fiquei, na verdade eu quis rir, isso porque João estava mais nervoso que o acidentado, e tentou estancar o sangue com uma bola de papel (de caderno), ele olhava para mim e perguntava: "vou ficar de castigo tia?" enquanto colocava a bola no rosto do colega.

Bem, peguei Lucas pela mão e o levei para coordenação. Limpamos o sangue e...

Eu sei o que vocês estão pensando "o dente dele caiu". Eu também pensei nisso, mas ele bateu foi o nariz, e parecia uma cachoeira sanguinolenta que não deixava eu ver onde estava machucado. Depois de limpo ele sentou-se e ficou quietinho (por 10 minutos).

*Moral da história: rir dos coleguinhas não é legal, pois você pode se dar mal.


Aline Antunes

-Os nomes das crianças foram modificados a fim de preservar a identidade das mesmas.


segunda-feira, 17 de abril de 2017

A falta de leitores


A leitura é um poço profundo de onde o indivíduo pode tirar ideias. Essas águas de múltiplos pensamentos quando derramadas sobre o solo do coração são capazes de florescer mais conhecimento, esse por sua vez gera mais empatia se cultivado do jeito certo.
Então é preocupante a dificuldade de encontrar leitores. Não qualquer leitor, mas aqueles dispostos a conhecer tudo, seja pelos olhos da ficção ou da crua verdade.
Encontrar um leitor é difícil, porque a leitura é libertadora e nem todos querem ser libertos. Afinal de contas, se manter na ignorância é mais fácil, esperar que terceiros lhe deem a resposta é mais fácil, permitir que alguém lhe guie é mais fácil, só que a ignorância também é o caminho mais fácil para se perder.
Ler é conquistar mundos que já foram ou que poderiam ser, se perdendo nessas histórias para se encontrar um pouco nas suas personalidades, é ser levado a aprender construindo, desconstruindo e reformando conhecimentos adquiridos ao longo da História, das experiências e da imaginação.
Portanto, ler não é uma tarefa simples, porque exige desejo de conhecer, vontade de mudar o mundo e força para aguentar a realidade de que leitores estão em falta.

Lis Regina.

sexta-feira, 24 de março de 2017

O que falamos e o que ensinamos

     
imagem: http://www.imgrum.org/tag/desenhocomobjetos
     Muitas pessoas tendem a achar que tudo o que o professor ensina está contido nas palavras que ele diz. Ou que tudo o que ele diz é aprendido. Como trabalho com crianças pequenas, eu preciso repetir as mesmas coisas todos os dias, e, sinceramente, é muito cansativo. Todos os dias eu repito os mesmos procedimentos, a mesma rotina; eles nem percebem, mas a minha aula é toda cronometrada no tempo que eles levam para realizar determinado tipo de atividade. 
     Ano passado eu não era tão organizada, eu nem dava muita importância na repetição, como eu disse: é muito cansativo.
     A turma de 2016 era muito agitada, eles não paravam de falar, ou de correr, ou de brincar, e eu tinha que fazer tudo muito rápido para ocupar todos os segundos; só assim eles não teriam tempo de fazer algo inapropriado na sala (como no dia que quebraram a lâmpada com uma bolinha). Bem, toda essa agitação tinha uma consequência: desorganização. Eles eram extremamente desorganizados. Passei o ano repetindo: guarde o lápis, tem lápis no chão, ainda vejo lápis no chão, não pode deixar papel no chão, cuidem do material de vocês...
     Todos os dias alguém perdia um lápis, ou uma borracha, ou qualquer outra coisa; e todos os dias eu repetia "eu não sou guardiã do seu material", "já falei para colocar o nome nas suas coisas". A maioria dos professores sabe que o chão é um buraco negro onde moram os monstros comedores de lápis. Caiu no chão, ADEUS, o lápis some, nunca mais é visto. Não importa que a pessoa cate os lápis no fim da aula, se começou com 10, termina com 8.
     Eu cansei de repetir essas coisas; eu me chateei repetindo essas coisas, porque por mais que eu falasse, o material ia minguando dos meus potinhos, e eu ia ficando cada vez mais irritada; e eu tenho fixação com lápis de cor, cuido muito bem dos meus, e é muito difícil para mim quando estou com pessoas desleixadas. Então decidi que começaria o ano de 2017 já colocando as regras do uso do lápis, e tem funcionado muito bem! Essa turma é bem mais cuidadosa. Estou feliz com isso.
     Um dia cheguei na escola e uma aluna do ano passado estava do lado de fora (aluna que me deu bastante trabalho por sinal...), enquanto eu esperava o porteiro vi que ela segurava a bolsinha de lápis novinha e falei:
    - Bolsinha nova! Deixa eu ver!
     Abri a bolsinha, estava cheia de lápis novinhos, e já estamos no 2º mês de aula! O que me deixou realmente surpresa foram as marcas nos lápis. Ela marcou os lápis exatamente como eu marco os meus: com adesivos. Marcou todos os lápis. Foi nessa hora que eu pensei "alguma coisa eu ensinei, e não foi nada do que falei, foi algo que fiz".
     A gente fala muitas coisas para as crianças, o tempo todo elas nos escutam, a maior parte do tempo parece que elas não estão ouvindo nada, estão ali brincando. mas as crianças são tão incríveis que a maioria delas consegue fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo!
     Eu não faço a mínima ideia se essa menina aprendeu alguma coisa sobre as olimpíadas e sobre o Rio de Janeiro, que foram assuntos de nossas aulas. Mas eu sei que ela não está mais perdendo os lápis dela.
     Parece bobo, eu sei, sou professora, ela devia ter aprendido outras coisas (e deve ter aprendido), mas esses lápis marcados são apenas um lembrete, um bilhetinho alí no cantinho que as vezes esquecemos em meio aos papéis: as coisas que falamos nem sempre são as coisas que ensinamos. As coisas que queremos ensinar, nem sempre são aprendidas. E as coisas que nos cansam, podem trazer benefícios.

     
ps: Os deuses do ensino sorriram para mim e me deram uma turma mais calma esse ano, que me contempla com a seguinte frase: "achei minha borracha professora! A senhora mandou eu prestar atenção e procurar com cuidado e eu prestei atenção, estava dentro da minha bolsa!"
Só perdi 4 lápis em 2 meses, as borrachas ainda estão lá, junto com os lápis de cor e apontadores. Os alunos também ensinam um bocado para o professor. =)

Aline Antunes

quinta-feira, 16 de março de 2017

Deixe seu bilhete


Estive em uma turma de 3º ano que era agressiva. Meninos e meninas batiam uns nos outros, se xingavam e isso era comum na sala.
Dividi a sala em dois grupos, ambos deveriam expressar suas raivas através de sugestões, reclamações e elogios que seriam postos nos envelopes destinados a isso e lidos por mim nas sextas-feiras para que eles pudessem comentar e desculparem uns aos outros (caso fosse necessário).
Os grupos funcionavam com pontuação. Cada bilhete valia dez pontos positivos, mas cada briga verbal ou física tinha altas pontuações negativas. Como nem todos escreviam bem, eles se ajudavam na hora de escrever os bilhetes e lembravam quem estivesse prestes a entrar em uma briga: "nós vamos perder pontos!".
Na sexta-feira, nossa roda de conversa era muito aguardada. Depois de algum tempo, a turma estava mais aberta a discussã!o sem brigas e fizemos nosso encerramento do "Jogo" com uma história. Era a história de um soldado que, caminhando para o serviço, foi encharcado por uma mulher que, no primeiro andar, não o tinha visto passar. O gênio que estava observando a cena jogou um feitiço para que o soldado dissesse apenas coisas bonitas e o soldado ao tentar xingar a mulher fez um elogio a ela: "você é a joia mais linda do sultão". E tudo o que ele disse depois foi positivo, então ela desceu para ajudá-lo e tudo ficou tranquilo entre eles.


Pouco tempo depois de ouvirem essa história um dos alunos começou a discutir com uma das alunas, mas lembrados da história começaram a mandar beijos um para o outro. A discussão morreu.
Venho observando que as crianças estão cercadas de falantes, os adultos querem ser ouvidos, obedecidos, reverenciados até, mas pouco se ouve das crianças. Elas estão crescendo envolvidas no seu próprio mundinho egoísta, mal socializam entre elas e quando fazem acabam brigando, são como um espelho ainda mais distorcido que o nosso em relação aos tempos dos nossos pais. A pior parte disso é que dizemos que nos importamos com elas, só que esta parece ser mais uma das mentiras que nossa geração conta para se consolar por estar sendo negligente.
Vivemos uma época onde a criancinha tem tudo que não seja afeto e reclamamos que os dias estão cada vez mais violentos, sem amor, sem compaixão. Tudo isso é resultado de uma geração mimada materialmente, sem disciplina, com dificuldade de atenção, uma geração que não conhece o cuidado de pais que se importam em ouvir e conversar.
Hoje nossas crianças não estão sendo ouvidas, amanhã será a nossa vez

domingo, 12 de março de 2017

Qual vai ser a sua decoração?


               
                     Primeiros meses como formada e depois da habitual entrega de inúmeros currículos e depois de todo processo de seleção é chegada a hora, o grande momento depois de quatro anos estudando teóricos, métodos, estudiosos e é chegado o momento: tenho a minha primeira turma, minha primeira chance de mostrar meu desempenho como professora e com ela um desafio em particular que estou superando aos poucos.
                Se eu achava que a seleção para entrar na escola tinha sido complicada não foi nada comparada à minha primeira semana pedagógica, escolha de horários, de turma, de sala; se eu achava que tudo isso era muita coisa, estava enganada, o pior ainda estava por vir. Depois de ser designada para a turma do nível quatro da educação infantil, pensei “ok ,vai da certo”, sei o que tenho de trabalhar.  E volto no terceiro dia da semana pedagógica toda empolgada com meu planejamento, minhas ideias, naquela animação, ai que é chegado o momento que a faculdade e todos os seminários, palestras, oficinas que eu participei não me prepararam, e começou com uma simples frase “qual vai ser a sua decoração da sala?”, ai eu parei e pensei, “ho! meu Deus e agora ?”.
                Mesmo com certa dificuldade pensei fundo do mar, toda criança gosta ,e fazer um peixe covenhamos que é mais fácil do que fazer uma princesa, que foi escolhida por outra professora que resolveu mostrar toda habilidade dela adquirida nos anos de profissão ou doada por intervenção divina,  fazer a sala dela de contos de fadas.
                Cheguei toda tímida com alguns peixinhos de cartolina no outro dia para colar na parede, e já me deparo com as outras professoras e suas sacolas cheias de coisas  para a decoração. Quando estava pronta para colocar algumas das coisas que tinha feito,  a coordenadora pedagógica olha para o meu singelo peixe e fala “tem que ser de EVA “,  aí sim começou meu maior desafio: trabalhar com esse EVA. Não sei em que curso as professoras aprenderam a fazer isso, mas  achei a coisa mais complicada e difícil de se trabalhar,  é difícil de cortar, manter o formato, de colar, de  moldar, de tudo! Sem falar que parece ter uma competição interna dentro da escola onde as professoras mostram quem consegue fazer coisas mais incríveis com esse material, pois, enquanto eu chegava,  depois de muito trabalho com um peixe de Eva, vinha outra professora que fazia uma sereia, com escama e tudo; enquanto chegava com algas marinhas,  tinha outra que fazia um castelo, a branca de neve e os sete anões. Gente do céu  como foi difícil  adequar a  bendita decoração  toda em EVA, fazer placa de boas vindas, chamada, calendário,   os bichinhos  e caixa de leitura. E se eu estava achando que ia acabar por aí,  estava enganada: tinha as lembranças da turma  do primeiro dia, da primeira semana... Que também eram pra ser em EVA; e eu me pergunto "porque a escola gosta tanto de EVA?". Acaba que tem sala que a professora, dotada dessas incríveis habilidades de se trabalhar com EVA, coloca tanto dele na sala que os alunos ficam protegidos caso batam alguma parte do corpo na parede, uma vez que ela já vai estar toda acolchoada.

                 Mas bem, com o tempo vem a sabedoria e eu aprendi uma coisa mágica chamada “MOLDE”, que apesar  de ainda não saber fazer o castelo, a branca de neve e os sete anões, agora já faço uma casinha bem arrumadinha, e  agora no meu segundo ano na escola já  estou bem mais desenvolvida nas habilidades com o trabalho em EVA; ainda acho complicado e não entendo  por que se trabalha tanto com ele, mas estou melhorando. 


Eva

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Reflexão sobre meu primeiro ano como professora

   
     Essa semana completou 1 ano que eu sou professora titular de sala. Dia 23/02/2015 foi a minha primeira aula. Acho que esse foi o ano mais rápido da minha vida. 
     Entre eu assumir o concurso e começar as aulas foi só uma questão de dias, não deu tempo de pensar muito sobre essa decisão que a vida tomou por mim, eu praticamente cai de para-quedas na sala de aula; mal sabia o que deveria fazer lá, o que poderia fazer (muito importante). 
     Durante os primeiros dias eu estava em fase de adaptação: que tipo de professora eu seria; que tipo eu deveria ser; e que tipo eu poderia ser. O "poderia" parece sem sentido, mas é importante lembrar que num ambiente escolar nem sempre você pode ser aquilo que você quer, muitas vezes você deve se moldar à escola.
     Bem, passados alguns meses eu fui conquistando meu lugar e descobrindo o que era possível fazer. Percebi que eu era livre para dar a aula como bem entendesse, contanto que: as crianças estivessem em silêncio e me obedecessem; eu seguisse os projetos que a escola queria, com uma apresentação ao fim (vou ter que falar sobre isso algum dia) e ao final do ano elas estivessem lendo e escrevendo. 
     A liberdade tem um limite. Mas a verdade é que eu fiz muito do que quis fazer. Só que nem sempre eu soube o que deveria fazer, precisei de ajuda várias vezes. O curso de pedagogia é uma ilusão, já nas aulas eu percebia a diferença entre o que se falava e o que se observava, claro que nem tudo foi em vão, mas dentro da escola eu aprendi bem mais com as professoras mais experientes do que com muitas aulas que tive no curso. Ninguém me ensinou como eu deveria lidar com uma turma super agitada, com duas crianças -possivelmente- com TDAH, e uma disparidade enorme no nível de aprendizagem. Ninguém me ensinou também a lidar com uma criança que chega triste porque a mãe não se importa, ou suja, sem material... Ninguém me disse o que eu deveria fazer quando uma criança chorasse nos meus braços por causa de problemas em casa, muito menos quando um aluno se mostrasse agressivo.
     Eu sei dizer que atividade fazer e como fazer para cada nível de escrita em que a criança se encontra, foi uma das coisas que aprendi nos 4 anos de pedagogia. Mas quando eu entrei na minha turma, esse conhecimento não valeu de nada, porque eu não poderia fazer 1 atividade pensando num único nível. E porque a aula é mais do que a atividade, e porque o professor é mais do que aquele que ensina. 
     A verdade é que passei meses para perceber o ritmo da minha turma e organizar uma rotina que fosse eficiente; engraçado que hoje a nova professora deles veio dizer: "menina, eles fazem a atividade muito rápido!Eu tenho que mudar o planejamento!". Realmente era uma turma muito rápida, por isso eu precisava fazer mil coisas no dia, e por isso eu demorei tanto para me adequar a eles: no curso de pedagogia as crianças ficam sentadas quietas.
     Durante esse meu primeiro ano eu usei muito mais meu instinto que meu conhecimento acadêmico, na convivência com essa turma tinha muito do meu caráter ali, como eu enxergo a criança e como eu acho que devo lidar com elas (outra coisa que preciso falar algum dia, pois me incomoda muito as pessoas que não prestam atenção naquele que fica com os filhos delas na maior parte da semana). Eu apanhei um bocado ano passado, nunca chorei, nunca duvidei, nunca me arrependi. Mas quando eles choravam, meus olhos enchiam de lágrimas, quando eles aprendiam a ler, vinha um nó na minha garganta: nós fizemos isso juntos!
      Esse primeiro ano foi de grande aprendizagem. E eu já comecei o segundo ano fazendo várias coisas diferentes, minha didática ficou mais organizada. Não está ainda 100%, mas isso é um processo. 
     Durante as férias eu fiquei refletindo sobre a nova turma que viria, me preparando para toda a agitação e pensando nas coisas que eu poderia fazer para melhorar. Achei que a turma seria como a de 2016, mas não é! Cada turma tem sua própria dinâmica, e agora estou mais uma vez num processo de adaptação. Acho a turma de 2017 bem mais calma; mas será que eles são calmos ou eu que mudei meu conceito de "agitado"?
      Ao fim de 2016 as pessoas me abordavam perguntando sobre as crianças e suas histórias e eu dizia "ah, eles nem estão mais falando aquelas coisas engraçadas...Eles cresceram, amadureceram..." E alguns me questionavam, argumentando que não tinha como eles ficarem diferentes em alguns meses. Mas tem sim. Para uma criança, 6 meses é a diferença entre estar na barriga e estar engatinhando, é a diferença entre o estômago só aceitar leite materno e começar a digerir comidas sólidas, é a diferença entre chorar e balbuciar as primeiras sílabas. O ser humano nasce incompleto, para uma criança 6 meses faz toda diferença. Não é a diferença entre ter 7 anos e completar 8, tem um monte de coisas acontecendo dentro e fora dela. E elas mudam um bocado! E eu mudei um bocado junto com elas.
     E 1 ano foi a diferença entre eu ser uma estudante de pedagogia e me tornar uma professora. 
     Esse texto todo foi só para pensar em todas as mudanças que nos cercam diariamente, que as vezes são bem sutis e mal percebemos. Foi também para pensar sobre a diferença entre o que se vê na faculdade e o que se faz na prática, e para dizer que não importa o quão discrepante seja, o que importa é como você utiliza as informações absorvidas. Você descarta ou você recicla? 
    A forma como utilizamos o que aprendemos é que vai moldando nossa maneira de lidar com o mundo. No meu caso meu mundo são as crianças. 
     Foi isso, entre outras coisas, que eu aprendi nesse meu primeiro ano.


Beijos e até a próxima :*
     
Aline Antunes - professora da #sala3
      
    

sábado, 18 de fevereiro de 2017

O MENININHO COLÉRICO




Conheci um garotinho que pisava forte e estava sempre reclamando comigo, se sentia sempre injustiçado ainda que admitisse estar errado! Esse era o menininho colérico que todos os dias encontrava um motivo (ou vários!) para reclamar, não consigo nem lembrar seus muitos motivos, só lembro de um dia começar um projeto que envolvia a escrita de cartas, que poderiam ser endereçadas a mim ou aos colegas. O menininho colérico veio me dizer: "Vou fazer uma coleção de cartas suas".
E não é que ele me escreveu reclamações também?! Mas muitos elogios foram tecidos até de legal, a chata aqui, fui chamada.
Um belo dia, por causa de algumas discussões, avisei: "Quem quiser conversar me avise e vou tirar dois minutos exclusivos para essa conversa". Ele foi o primeiro. Me contou muitas dores do seu coraçãozinho de criança, chorou, falou que estava triste, explicou sua rotina e porque gostava de se demorar na escola. Depois disso uma criança nova renasceu.
Na aula seguinte, o menininho colérico não tinha nada para reclamar e nos dias que se seguiram estava tão calmo que todos notaram. Esse foi o efeito de uma única conversa. Ele ainda era a mesma criança, mas agora estava leve e não agressivo.
Quando penso nesse exemplo, imagino quantas vezes o estresse dele me deixava irritada, "por que ele não para? Acha que é o centro do universo e não posso dedicar o dia inteiro só para ele!". Diante de tudo o que me contou também penso na família que não o escutava. E agora só me resta pensar em quantas crianças precisam de ouvidos-amigos, afinal ser criança não torna a vida menos complexa.
Quem sabe não tem alguém aí esperando para ser ouvido?!
Enchanté 😗

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

MEU PRIMEIRO ANO DE FORMADA (E DESEMPREGADA)!

        Me formei no segundo semestre de 2015 cheia de sonhos e expectativas de encontrar uma escola que me contratasse e assim conseguir seguir a carreira dos meus sonhos (sim! Eu sempre quis ser professora). Durante o curso sempre ouvi de várias pessoas que pedagogia não era a sua primeira opção e sinceramente eu me perguntava quais os motivos que levavam tais pessoas a seguirem no curso...

     Dois mil e dezesseis foi um ano de total frustração na minha vida, inclusive no âmbito profissional, foram vários currículos mandados, várias esperas por ligações, vários nãos e alguns talvez. Sinceramente me senti um lixo, comecei a achar que o problema estava em mim. Eu deveria ser péssima profissional, afinal eu tinha acabado de me formar e não tinha tanta experiencia assim. Além do mais, as pessoas estão com uma mania de te transformar em papel, geralmente me davam uma prova, um plano de aula pra fazer e anexavam ao meu currículo junto com outros mil concorrentes, qual a minha real possibilidade de ser chamada em uma dessas escolas?

        Durante essa procura sem fim eu fui ficando muito triste, primeiro porque eu não aguentava mais ficar em casa, olhando pro teto, sou daquelas que gosto de ter uma utilidade no mundo. Segundo, porque quase todas as pessoas ficavam dizendo pra eu procurar emprego em outra área e por muitas vezes procurei, mas ouvir aquilo era muito frustrante, era a confirmação do quanto eu era incapaz de realizar a atividade da qual estudei anos para realizar.

       Mas calma! No final tudo deu certo, fiz uma entrevista em uma escola particular no meu município e não me transformaram em um papel, creio que isso tenha sido fundamental. Numa conversa olho no olho com a diretora da escola, fui relembrando que eu era capaz, me senti muito segura durante a entrevista, me reencontrei. Consegui o emprego, estou como auxiliar de uma turma o que me faz acordar feliz todos os dias as seis da manhã, a cada dia me redescubro, me fortaleço na profissão, crio laços lindos com os alunos o que pra mim tem sido maravilhoso. As vezes as situações nos deixam muito infelizes, foi o meu caso em 2016 todas as coisas que aconteceram comigo me deixavam cada dia mais pra baixo e com muito medo de tudo dar errado no final... E de certa forma isso me fortaleceu, pois por mais que o mundo me negasse as oportunidades eu nunca parei de acreditar e no fim tudo valeu muito a pena, hoje estar na escola desenvolvendo um trabalho tem um significado muito maior pra mim. Então se algo começar a dar errado na sua vida, não se pressione muito. Apenas faça a sua parte pra conseguir alcançar eu objetivo, mas de maneira nenhuma ache que o problema está em você, faça o seu melhor sempre que a recompensa chegará.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Recrutando!

Olá!
Nosso blog é bem recente e estamos recrutando autores!
A ideia geral é escrever sobre coisas que tenham haver como nosso cotidiano no meio educacional, seja como professor ou como aluno de graduação, ou mesmo dando opiniões referentes a diferentes assuntos que envolvem a educação.
Serão 30 pessoas, cada um escreverá em 1 dia do mês, assim todos terão tempo de pensar nas suas postagens com calma.




Interessados podem enviar e-mail para corujas.fashion@yahoo.com.br com as seguintes informações:


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Dia do mês que gostaria de postar

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