sexta-feira, 24 de março de 2017

O que falamos e o que ensinamos

     
imagem: http://www.imgrum.org/tag/desenhocomobjetos
     Muitas pessoas tendem a achar que tudo o que o professor ensina está contido nas palavras que ele diz. Ou que tudo o que ele diz é aprendido. Como trabalho com crianças pequenas, eu preciso repetir as mesmas coisas todos os dias, e, sinceramente, é muito cansativo. Todos os dias eu repito os mesmos procedimentos, a mesma rotina; eles nem percebem, mas a minha aula é toda cronometrada no tempo que eles levam para realizar determinado tipo de atividade. 
     Ano passado eu não era tão organizada, eu nem dava muita importância na repetição, como eu disse: é muito cansativo.
     A turma de 2016 era muito agitada, eles não paravam de falar, ou de correr, ou de brincar, e eu tinha que fazer tudo muito rápido para ocupar todos os segundos; só assim eles não teriam tempo de fazer algo inapropriado na sala (como no dia que quebraram a lâmpada com uma bolinha). Bem, toda essa agitação tinha uma consequência: desorganização. Eles eram extremamente desorganizados. Passei o ano repetindo: guarde o lápis, tem lápis no chão, ainda vejo lápis no chão, não pode deixar papel no chão, cuidem do material de vocês...
     Todos os dias alguém perdia um lápis, ou uma borracha, ou qualquer outra coisa; e todos os dias eu repetia "eu não sou guardiã do seu material", "já falei para colocar o nome nas suas coisas". A maioria dos professores sabe que o chão é um buraco negro onde moram os monstros comedores de lápis. Caiu no chão, ADEUS, o lápis some, nunca mais é visto. Não importa que a pessoa cate os lápis no fim da aula, se começou com 10, termina com 8.
     Eu cansei de repetir essas coisas; eu me chateei repetindo essas coisas, porque por mais que eu falasse, o material ia minguando dos meus potinhos, e eu ia ficando cada vez mais irritada; e eu tenho fixação com lápis de cor, cuido muito bem dos meus, e é muito difícil para mim quando estou com pessoas desleixadas. Então decidi que começaria o ano de 2017 já colocando as regras do uso do lápis, e tem funcionado muito bem! Essa turma é bem mais cuidadosa. Estou feliz com isso.
     Um dia cheguei na escola e uma aluna do ano passado estava do lado de fora (aluna que me deu bastante trabalho por sinal...), enquanto eu esperava o porteiro vi que ela segurava a bolsinha de lápis novinha e falei:
    - Bolsinha nova! Deixa eu ver!
     Abri a bolsinha, estava cheia de lápis novinhos, e já estamos no 2º mês de aula! O que me deixou realmente surpresa foram as marcas nos lápis. Ela marcou os lápis exatamente como eu marco os meus: com adesivos. Marcou todos os lápis. Foi nessa hora que eu pensei "alguma coisa eu ensinei, e não foi nada do que falei, foi algo que fiz".
     A gente fala muitas coisas para as crianças, o tempo todo elas nos escutam, a maior parte do tempo parece que elas não estão ouvindo nada, estão ali brincando. mas as crianças são tão incríveis que a maioria delas consegue fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo!
     Eu não faço a mínima ideia se essa menina aprendeu alguma coisa sobre as olimpíadas e sobre o Rio de Janeiro, que foram assuntos de nossas aulas. Mas eu sei que ela não está mais perdendo os lápis dela.
     Parece bobo, eu sei, sou professora, ela devia ter aprendido outras coisas (e deve ter aprendido), mas esses lápis marcados são apenas um lembrete, um bilhetinho alí no cantinho que as vezes esquecemos em meio aos papéis: as coisas que falamos nem sempre são as coisas que ensinamos. As coisas que queremos ensinar, nem sempre são aprendidas. E as coisas que nos cansam, podem trazer benefícios.

     
ps: Os deuses do ensino sorriram para mim e me deram uma turma mais calma esse ano, que me contempla com a seguinte frase: "achei minha borracha professora! A senhora mandou eu prestar atenção e procurar com cuidado e eu prestei atenção, estava dentro da minha bolsa!"
Só perdi 4 lápis em 2 meses, as borrachas ainda estão lá, junto com os lápis de cor e apontadores. Os alunos também ensinam um bocado para o professor. =)

Aline Antunes

quinta-feira, 16 de março de 2017

Deixe seu bilhete


Estive em uma turma de 3º ano que era agressiva. Meninos e meninas batiam uns nos outros, se xingavam e isso era comum na sala.
Dividi a sala em dois grupos, ambos deveriam expressar suas raivas através de sugestões, reclamações e elogios que seriam postos nos envelopes destinados a isso e lidos por mim nas sextas-feiras para que eles pudessem comentar e desculparem uns aos outros (caso fosse necessário).
Os grupos funcionavam com pontuação. Cada bilhete valia dez pontos positivos, mas cada briga verbal ou física tinha altas pontuações negativas. Como nem todos escreviam bem, eles se ajudavam na hora de escrever os bilhetes e lembravam quem estivesse prestes a entrar em uma briga: "nós vamos perder pontos!".
Na sexta-feira, nossa roda de conversa era muito aguardada. Depois de algum tempo, a turma estava mais aberta a discussã!o sem brigas e fizemos nosso encerramento do "Jogo" com uma história. Era a história de um soldado que, caminhando para o serviço, foi encharcado por uma mulher que, no primeiro andar, não o tinha visto passar. O gênio que estava observando a cena jogou um feitiço para que o soldado dissesse apenas coisas bonitas e o soldado ao tentar xingar a mulher fez um elogio a ela: "você é a joia mais linda do sultão". E tudo o que ele disse depois foi positivo, então ela desceu para ajudá-lo e tudo ficou tranquilo entre eles.


Pouco tempo depois de ouvirem essa história um dos alunos começou a discutir com uma das alunas, mas lembrados da história começaram a mandar beijos um para o outro. A discussão morreu.
Venho observando que as crianças estão cercadas de falantes, os adultos querem ser ouvidos, obedecidos, reverenciados até, mas pouco se ouve das crianças. Elas estão crescendo envolvidas no seu próprio mundinho egoísta, mal socializam entre elas e quando fazem acabam brigando, são como um espelho ainda mais distorcido que o nosso em relação aos tempos dos nossos pais. A pior parte disso é que dizemos que nos importamos com elas, só que esta parece ser mais uma das mentiras que nossa geração conta para se consolar por estar sendo negligente.
Vivemos uma época onde a criancinha tem tudo que não seja afeto e reclamamos que os dias estão cada vez mais violentos, sem amor, sem compaixão. Tudo isso é resultado de uma geração mimada materialmente, sem disciplina, com dificuldade de atenção, uma geração que não conhece o cuidado de pais que se importam em ouvir e conversar.
Hoje nossas crianças não estão sendo ouvidas, amanhã será a nossa vez

domingo, 12 de março de 2017

Qual vai ser a sua decoração?


               
                     Primeiros meses como formada e depois da habitual entrega de inúmeros currículos e depois de todo processo de seleção é chegada a hora, o grande momento depois de quatro anos estudando teóricos, métodos, estudiosos e é chegado o momento: tenho a minha primeira turma, minha primeira chance de mostrar meu desempenho como professora e com ela um desafio em particular que estou superando aos poucos.
                Se eu achava que a seleção para entrar na escola tinha sido complicada não foi nada comparada à minha primeira semana pedagógica, escolha de horários, de turma, de sala; se eu achava que tudo isso era muita coisa, estava enganada, o pior ainda estava por vir. Depois de ser designada para a turma do nível quatro da educação infantil, pensei “ok ,vai da certo”, sei o que tenho de trabalhar.  E volto no terceiro dia da semana pedagógica toda empolgada com meu planejamento, minhas ideias, naquela animação, ai que é chegado o momento que a faculdade e todos os seminários, palestras, oficinas que eu participei não me prepararam, e começou com uma simples frase “qual vai ser a sua decoração da sala?”, ai eu parei e pensei, “ho! meu Deus e agora ?”.
                Mesmo com certa dificuldade pensei fundo do mar, toda criança gosta ,e fazer um peixe covenhamos que é mais fácil do que fazer uma princesa, que foi escolhida por outra professora que resolveu mostrar toda habilidade dela adquirida nos anos de profissão ou doada por intervenção divina,  fazer a sala dela de contos de fadas.
                Cheguei toda tímida com alguns peixinhos de cartolina no outro dia para colar na parede, e já me deparo com as outras professoras e suas sacolas cheias de coisas  para a decoração. Quando estava pronta para colocar algumas das coisas que tinha feito,  a coordenadora pedagógica olha para o meu singelo peixe e fala “tem que ser de EVA “,  aí sim começou meu maior desafio: trabalhar com esse EVA. Não sei em que curso as professoras aprenderam a fazer isso, mas  achei a coisa mais complicada e difícil de se trabalhar,  é difícil de cortar, manter o formato, de colar, de  moldar, de tudo! Sem falar que parece ter uma competição interna dentro da escola onde as professoras mostram quem consegue fazer coisas mais incríveis com esse material, pois, enquanto eu chegava,  depois de muito trabalho com um peixe de Eva, vinha outra professora que fazia uma sereia, com escama e tudo; enquanto chegava com algas marinhas,  tinha outra que fazia um castelo, a branca de neve e os sete anões. Gente do céu  como foi difícil  adequar a  bendita decoração  toda em EVA, fazer placa de boas vindas, chamada, calendário,   os bichinhos  e caixa de leitura. E se eu estava achando que ia acabar por aí,  estava enganada: tinha as lembranças da turma  do primeiro dia, da primeira semana... Que também eram pra ser em EVA; e eu me pergunto "porque a escola gosta tanto de EVA?". Acaba que tem sala que a professora, dotada dessas incríveis habilidades de se trabalhar com EVA, coloca tanto dele na sala que os alunos ficam protegidos caso batam alguma parte do corpo na parede, uma vez que ela já vai estar toda acolchoada.

                 Mas bem, com o tempo vem a sabedoria e eu aprendi uma coisa mágica chamada “MOLDE”, que apesar  de ainda não saber fazer o castelo, a branca de neve e os sete anões, agora já faço uma casinha bem arrumadinha, e  agora no meu segundo ano na escola já  estou bem mais desenvolvida nas habilidades com o trabalho em EVA; ainda acho complicado e não entendo  por que se trabalha tanto com ele, mas estou melhorando. 


Eva