Estive em uma turma de 3º ano que era agressiva. Meninos e meninas batiam uns nos outros, se xingavam e isso era comum na sala.
Dividi a sala em dois grupos, ambos deveriam expressar suas raivas através de sugestões, reclamações e elogios que seriam postos nos envelopes destinados a isso e lidos por mim nas sextas-feiras para que eles pudessem comentar e desculparem uns aos outros (caso fosse necessário).
Os grupos funcionavam com pontuação. Cada bilhete valia dez pontos positivos, mas cada briga verbal ou física tinha altas pontuações negativas. Como nem todos escreviam bem, eles se ajudavam na hora de escrever os bilhetes e lembravam quem estivesse prestes a entrar em uma briga: "nós vamos perder pontos!".
Na sexta-feira, nossa roda de conversa era muito aguardada. Depois de algum tempo, a turma estava mais aberta a discussã!o sem brigas e fizemos nosso encerramento do "Jogo" com uma história. Era a história de um soldado que, caminhando para o serviço, foi encharcado por uma mulher que, no primeiro andar, não o tinha visto passar. O gênio que estava observando a cena jogou um feitiço para que o soldado dissesse apenas coisas bonitas e o soldado ao tentar xingar a mulher fez um elogio a ela: "você é a joia mais linda do sultão". E tudo o que ele disse depois foi positivo, então ela desceu para ajudá-lo e tudo ficou tranquilo entre eles.
Pouco tempo depois de ouvirem essa história um dos alunos começou a discutir com uma das alunas, mas lembrados da história começaram a mandar beijos um para o outro. A discussão morreu.
Venho observando que as crianças estão cercadas de falantes, os adultos querem ser ouvidos, obedecidos, reverenciados até, mas pouco se ouve das crianças. Elas estão crescendo envolvidas no seu próprio mundinho egoísta, mal socializam entre elas e quando fazem acabam brigando, são como um espelho ainda mais distorcido que o nosso em relação aos tempos dos nossos pais. A pior parte disso é que dizemos que nos importamos com elas, só que esta parece ser mais uma das mentiras que nossa geração conta para se consolar por estar sendo negligente.
Vivemos uma época onde a criancinha tem tudo que não seja afeto e reclamamos que os dias estão cada vez mais violentos, sem amor, sem compaixão. Tudo isso é resultado de uma geração mimada materialmente, sem disciplina, com dificuldade de atenção, uma geração que não conhece o cuidado de pais que se importam em ouvir e conversar.
Hoje nossas crianças não estão sendo ouvidas, amanhã será a nossa vez
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